Mesmo atormentando, macacos são alimentados por indianos.
Nova Déli – O primeiro intruso surgiu à sua frente na calçada e ergueu a mão,
em silêncio. O segundo apareceu por trás dela e apontou para a sacola. Maeve
O'Connor estava cercada.
Resistir teria sido perigoso, então Maeve entregou o que eles pediam. Os dois
se afastaram, arrogantemente. O encontro durou cerca de 15 segundos – apenas
mais um roubo coordenado por macacos Rhesus numa cidade cada vez mais
atormentada por eles.
"Eu tinha outras sacolas comigo, mas eles sabiam qual delas tinha pão
fresco", disse ela. "Eles foram totalmente silenciosos, rápidos e altamente
eficientes."
A população de macacos em Déli tornou-se tão grande e agressiva que
autoridades da cidade solicitaram à Suprema Corte indiana que o governo
municipal fosse auxiliado na tarefa de controle.
"Prendemos 13.013 macacos desde 2007", afirmou R. B. S. Tyagi, diretor de
serviços veterinários do governo de Déli. Mesmo assim, a população de macacos só
aumentou.
A razão é simples: as pessoas os alimentam. Os macacos são os representantes
vivos do deus Hanuman, e a tradição hindu pede que os macacos sejam alimentados
às terças e aos sábados.
Tyagi mostrou impaciência com os moradores que num dia alimentam os macacos,
e quando os animais roubam suas roupas, vêm reclamar do governo.
A agência de Tyagi pediu ajuda ao órgão municipal de vida selvagem, mas
funcionários deste último alegam que os macacos – uma praga na cidade desde que
a urbanização tomou conta de seu habitat natural – não são mais selvagens e,
portanto, fogem de sua responsabilidade.
"Esse problema nunca será resolvido" enquanto os hindus derem comida
regularmente aos macacos, garantiu R. M. Shukla, principal responsável pela vida
selvagem na cidade. "Divulgamos muitos anúncios pedindo que as pessoas não
alimentem macacos em locais públicos."
Em 2007, um subprefeito de Déli foi atacado por macacos, caiu de sua sacada e
morreu – um episódio que estimulou a cidade a aumentar os esforços para levar os
macacos a ambientes mais seguros. Mesmo assim, os ataques continuam. Em maio,
uma menina de 14 anos ficou gravemente ferida quando caiu do telhado de um
prédio residencial de cinco andares após ser perseguida pelos animais.
"É comum macacos morderem pessoas, e os ferimentos podem ser extensos",
explicou Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças
Infecciosas em Bethesda, Maryland. "Eles são espertos o bastante para atacar
frequentemente o rosto da pessoa."
Embora as mordidas de macacos possam causar raiva ou uma forma fatal do vírus
do herpes, os casos documentados são "praticamente inexistentes", continuou
Fauci. No entanto, infecções bacterianas de pele são comuns – e podem ser
tratadas com antibióticos.
Em Déli, sobram histórias sobre macacos invadindo casas, arrancando fiações,
furtando roupas e mordendo aqueles que os surpreendem. Eles tratam o prédio do
parlamento indiano como playground, invadiram o gabinete do primeiro-ministro e
do Ministério da Defesa, às vezes viajam em ônibus e em trens do metrô, e
expulsam diplomatas de seus jardins bem cuidados.
Roopi Saran, moradora de Déli, já viu macacos roubarem balas das mãos de seus
filhos. E tribos de macacos costumam aparecer em seu quintal, impedindo que ela
e as crianças saiam de casa.
"Então ficamos dentro de casa como animais enjaulados, como se nós
estivéssemos no zoológico e eles estivessem olhando para nós", comparou
Saran.
Com o fracasso do programa público de captura, alguns moradores estão usando
um macaco maior, chamado "langur", para urinar em volta de suas casas. O cheiro
forte da urina afasta os macacos Rhesus durante semanas. Mas o odor não é nenhum
perfume para os humanos – e, assim que desaparece, os macacos menores
reaparecem.
Recentemente, num bairro diplomático de Déli, Amar Singh, um tratador de
langurs, esperava tranquilamente enquanto seu macaco arrancava as folhas de uma
árvore no jardim de uma bonita casa. O langur, um grande macaco de rosto preto
dramaticamente emoldurado por pelos brancos, estava preso a um poste por uma
correia de dois metros. Singh alertou contra qualquer aproximação ao animal,
pois "o tapa de um langur é tão forte que pode lançar uma pessoa dois metros
para trás".
Singh afirmou ter 65 langurs urinando em casas e prédios importantes da
cidade toda. Ele e seus sócios alimentam e andam com cada macaco durante o dia,
mas eles ficam presos aos postes durante a noite. Ele cobra cerca de US$ 200 por
mês.
Segundo Yagi, os langurs simplesmente empurram os macacos Rhesus para as
casas vizinhas. Há sete anos, a cidade começou a contratar catadores de macacos
a US$ 5 por animal capturado. Há quatro anos o valor subiu para US$ 9, e hoje
está em US$ 12.
"Apesar do aumento do valor, existem poucos catadores de macacos", afirmou
ele.
Após anos sendo capturados em gaiolas com frutas e nozes como isca, os
macacos aprenderam a evitar as armadilhas. Durante um tempo, a cidade contratou
equipes profissionais altamente qualificadas de captura do sul da Índia; segundo
Tyagi, porém, até mesmo essas equipes pararam de vir a Déli. O estado de
Hichamal Pradesh, no norte da Índia, emitiu autorizações para matar macacos que
destruíam plantações, mas a prática gerou protestos e não está sendo considerada
em Déli.
Os macacos capturados são levados a um santuário no sul de Déli, mas os
moradores da região dizem que suas vidas foram arruinadas pelo afluxo. Os
macacos escalam os muros com facilidade e retornam aos bairros centrais da
cidade.
Kali, que mora numa pequena cabana perto do santuário e usa apenas um nome,
disse que sua filha e sobrinha foram mordidas duas vezes, exigindo viagens ao
hospital e vacinas caras. Após ser atacada durante o banho, hoje ela pede que
seu marido monte guarda sempre que se lava. E para uma família pobre como a
dela, os macacos são uma ameaça constante sob mais de um aspecto.
"Eu dou para eles as minhas sobras de comida, como pão roti", explicou ela.
"Mas eles fugiram com minhas cebolas."
The New York Times News Service/Syndicate – Todos os direitos reservados. É
proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York
Times._NYT_